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O plano de comunicação

Digamos que não é fácil entrar num Governo a meio do caminho. Muito menos neste inferno – com um memorando às costas, com a economia no estado em que está. É pior ainda entrar a meio quando se vê, entrando nele, um Governo entregue ao cada um por si, uma coligação de partidos com diferentes maneiras de agir, com diferentes perspectivas de como sair daqui.

Para Miguel Poiares Maduro, porém, o grau de dificuldade é imensamente maior. Porque veio para a coodenação política – mas não deixando de acumular outras pastas, ‘levezinhas’ como os fundos comunitários, as autarquias ou a comunicação social. A missão é, reconheçamos, quase impossível para alguém sem experiência política.

Os primeiros meses de Maduro foram, imagino, de avaliação do caso. Cometeu alguns erros pelo caminho (aquela reunião de concertação, aquele discurso em desafio ao TC). Mas é agora que começa o seu teste de fogo.

Por isso, o ministro-adjunto traçou um plano. Um plano em dois pontos. O primeiro em jeito de ‘soft power’, com coordenação de projectos, com a partilha de documentos pelos gabinetes, com um guião de respostas para uma mensagem afinada. A segunda parte do plano é, porém, audaciosa: uma reunião diária com jornalistas. Parece inócuo, mas não é. O modelo nunca foi testado por cá e não é por acaso.

Dentro de um Governo, a mera ideia de fazer briefings levanta resistências imediatas. Cada ministério sente que pode perder. Uns por questão de território, outros por medo que alguém, sem querer, estrague com uma frase o trabalho de semanas. Avançando contra resistências internas, Maduro entra no ‘hard power’. Procura o comando da situação, não se contentando com a coordenação de sofá.

Da minha parca experiência destas coisas, eu diria que o risco é alto, mas que o jogo é divertido. Um briefing diário é exigente. Muito.

  • Quem o fizer terá que estar em exclusivo dedicado ao ofício. Tem que ler jornais muito cedo (ao detalhe), acordar com as galinhas (e as rádios ao ouvido). Tem que adivinhar, de entre tudo, não só as matérias que já estão a incomodar, como aquelas que podem vir a incomodar amanhã – para fazer os devidos alertas internos.
  • Mais que isso, tem que ter (ou ganhar) estatuto interno no Governo. Porque a cada problema tem que conseguir resposta rápida e certa. Em alguns casos deve ter força para mudar planos em curso de membros do Governo
  • Na verdade não basta ter força interna. Tem que saber bem de Finanças Públicas, mas ter alguma interdisciplinariedade, para não perder o pé à frente dos jornalistas
  • Isto piora: sendo diário, o brifing não pode ser apenas reactivo. O que significa que todos os dias tem que levar respostas a questões que já ‘estão no ar’ mas, também, um ou dois pontos de interesse que possam ajudar a marcar positivamente o dia. Isto, convenhamos, só é possível num Governo que trabalha muito bem em antecipação. Como é óbvio não tem sido o caso.
  • Por fim, o plano precisa de alguém sem medo, com confiança suficiente para dizer várias vezes que não tem resposta e a vai procurar. Significando isto que vai mesmo e que consegue obter, de quando em vez, resposta.

Dito isto, perceberão porque vejo o plano de Maduro um jogo de alto risco – e é mesmo que Maduro preencha todos os requisitos. Mas tenho que reconhecer que um risco destes só corre quem está realmente determinado a mudar alguma coisa – entre as coisas que a comunicação e a coordenação política podem mudar.

Uma coisa parece-me certa: se Poiares Maduro acha que é preciso correr este risco, é porque o funcionamento deste Governo é mesmo tão mau como parece. Veremos até onde é possível mudá-lo ao fim deste tempo.

P.S. Depois de escrever este texto soube, pelo i, que será o secretário de Estado Pedro Lomba a dirigir os briefings. A experiência e inteligência dele matizam parte dos pressupostos que aqui deixei.

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