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Caro Paulo,

Como saberá, partilhamos algumas convicções sobre o tempo que vivemos, onde V. Ex.ª partilha, como diria o Dr. Gaspar, «o fardo da liderança». Permita-me que sintetize assim essas convicções:

1. No momento em que o nosso país se encontra, a um ano da saída da troika; com dois terços do programa de assistência cumpridos; e em circunstâncias de grande volatibilidade externa, precipitar uma crise conduziria a riscos maiores e não controlados, até porque ninguém pode honestamente prever o preço da ruptura da nossa credibilidade externa.

2. O risco de um segundo resgate seria (nesse cenário) elevado e o prolongamento da dependência externa seria inevitável. Tudo isso poderia pôr em causa e até deitar a perder esforços notáveis e sacrifícios pesados já realizados pela sociedade portuguesa. 

3. Compete, assim, aos defensores da tese das eleições antecipadas demonstrar que elas trariam benefícios. Sem essa demonstração, que não se afigura credível, uma crise política apenas serviria propósitos partidários.

4. Ao invés, considero que é num quadro de estabilidade e de procura de consensos políticos que se podem obter as mudanças necessárias no relacionamento com a missão externa e na margem de manobra do Estado português.

Todos estes quatro pontos foram escritos, letra a letra, pelo punho de V. Ex.ª, na moção de estratégia que apresenta ao congresso do CDS deste fim-de-semana e que teve a gentileza de nos ler durante uma hora pela TV. E serve para deixar a pergunta, que o meu amigo saberá que lhe farão insistentemente na Póvoa do Varzim (nós jornalistas, porque os congressistas só lhe pedirão mesmo um ‘eu fico’). É esta: o que é que mudou de tão significativo em duas semanas que o levasse a pôr tudo isto em causa, com a demissão e com a agonia em que deixou o país e os mercados?

E, já agora: se o Governo caísse agora, o CDS poderia sequer pensar num resultado  honroso em legislativas? Se caísse agora, o país poderia ter maior complacência da troika?  Se caísse assim, alguém veria V. Ex.ª ou o seu partido como parceiros fiáveis num Governo próximo?

A resposta é, julgo, não em todas as alíneas. O que me leva à conclusão, porventura ingénua, de que V. Ex.ª só pode ter agido por impulso e desespero.

Ora, eu considero há muito que devia ser mais ouvido pelo primeiro-ministro. Que pode e deve também lutar por uma mudança de rumo. Mas julgo que tem a experiência e inteligência suficientes para saber que um novo rumo nunca acontecerá contra a troika, mas só e apenas com bons argumentos e forte negociação. Pois esta semana, com a sua demissão, temo bem que tenha deitado por terra boa parte da folga que Portugal tinha para convencer os credores. Por muitas razões de queixa que tenha de Passos Coelho, o mínimo que lhe posso dizer é que não percebi nada.

Mas ainda partilho consigo um ponto mais importante: gostava que, ao menos, V. Exas. conseguissem tirar-nos da frente este memorando. Isso exige sempre que deixe passar duas horas, ou talvez dois dias, até redigir o próximo comunicado. Isto, claro, se a situação ainda tiver solução – o que me parece mais improvável a cada dia que passa.

Despeço-me com estima e consideração,

David Dinis.

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