Memorando

Viciados na táctica

Sou um confesso admirador de Marcelo Rebelo de Sousa. Ouvi-lo semanalmente é um prazer, embora nem sempre seja para levar a sério. Essa é, aliás, a sua maior qualidade: como bem retrata a sua biografia, escrita magistralmente pelo jornalista Vítor Matos, Marcelo vive a política, adora a política, mas não se leva demasiado a sério. Isso é bom.

Como é assim, talvez não leve a peito que lhe atribua um mal que vejo disseminado na sociedade portuguesa: ela viciou-se na táctica política de curto prazo, em muito alimentada pela vertigem semanal dos seus comentários. Esta semana tivemos boa prova disso.

O desafio do Presidente da República para que se promovesse um acordo de salvação é uma coisa séria. Para ser analisada, merece uma abordagem sistémica: pode ser bom para o país porquê, em que condições, com que posicionamento face aos credores.

Pois o que se discutiu maioritariamente não foi isto, mas a táctica partidária: que consequências o acordo terá para a coligação, para o PS e para o próprio Presidente.

Com espanto, ouvi até pessoas que há muito pediam este tipo de entendimento a dizer que o Presidente tinha sido imprudente, concluindo que não haveria acordo porque a prioridade de António José Seguro era assegurar a manutenção da sua liderança.

Pois eu discordo. António José Seguro é, hoje, o mais natural sucessor de Passos Coelho em São Bento. Claro que pode ter muito a perder com um acordo deste tipo. Mas a sua principal preocupação tem de ser outra, que simplifico desta forma: ‘que país vou eu receber quando lá chegar? E como é que vou fazer para o recompor?’.

Seguro sabe, como qualquer um de nós, que se arrisca a ter nas mãos um país feito em cacos, possivelmente sem maioria. Se não houver acordo, é possível até que o receba com um segundo resgate e ainda menos tolerância da troika. E, em consequência, com a imposição de cortar não 4 mil milhões, mas bastante mais, para não mencionar a hipótese de uma reestruturação de dívida hostil.

Tudo junto, isso significaria que o PS teria, em seis meses de governação, índices de popularidade muito piores do que os que hoje tem o PSD – com a agravante de o seu eleitorado ser bem menos tolerante à austeridade.

Dir-me-ão: mas ele não pode aceitar os cortes. E eu responderei que pode, dependendo sempre de quais e da sua matriz. Mas um acordo em que o PS aceite algum mal (que outros façam), para ele poder fazer menos daqui a um ano, parece-me o melhor negócio que Seguro terá até lá chegar.

E se é preciso ir à táctica, lembrem-se disto: o momento em que Passos foi mais popular foi quando negociou com Sócrates o PEC II. Agora vejam as sondagens de hoje. Que dizem elas? Que o PS mal subiu com a implosão do Governo. E que muitos querem que o acordo se faça.

A política, a meu ver, é hoje muito mais complexa do que foi até esta crise. O prof. Marcelo que me perdoe, mas a táctica partidária é agora a última coisa a analisar-se. E a última em que um candidato a primeiro-ministro pode pensar.

(artigo publicado no SOL)

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