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Detroit, Lisboa

A cidade de Detroit, antes famosa pela indústria automóvel, declarou falência enquanto por cá discutíamos um acordo de salvação nacional.

A história que nos tem sido contada pelos jornais americanos tem contornos trágicos. Uma vaga de emigração, degradação enorme dos serviços públicos, um terço da cidade sem electrificação pública. E uma luta de anos contra este destino.

A páginas tantas, o mayor da cidade tentou levantar um plano de recuperação. Passava por cortes nos salários dos funcionários públicos e nas pensões a cargo da cidade. O plano foi chumbado precisamente por tocar neles. Agora, decretando-se falência, os trabalhadores públicos de Detroit e os seus pensionistas tentaram travar – nos tribunais – a declaração de falência, precisamente com o mesmo motivo. O pedido foi chumbado. Os responsáveis de Detroit acreditam que só esta falência permitirá o seu renascimento.

Ou vai ou racha

V isto à distância do Atlântico e à luz dos acontecimentos recentes, o que se passa em Detroit parece uma profecia.

Não quero ser simplista nem trágico, o que o Presidente da República quis fazer nas últimas semanas foi juntar os responsáveis da nossa Polis para evitar o pior dos falhanços colectivos: a nossa falência, traduzida num segundo resgate do país.

Face a Detroit temos uma vantagem e uma desvantagem: a zona euro, fundada nos valores do Estado Social, não prevê que um Estado declare a sua insolvência e apoia a sua recuperação; mas, ao mesmo tempo, o apoio que lhe dá não é sequer aproximado ao que Washington dará a Detroit daqui em diante. Dito de outra forma: o euro impede uma tragédia social por cá, mas não nos dá (também por isso) um saco de dinheiro para recuperarmos.

Neste contexto, acho que ninguém pode dar por perdido o tempo em que PSD, CDS e PS se sentaram à mesa a conversar sobre o essencial. Há poucos meses era inimaginável que a discussão se fizesse e fosse séria.

Pelo que dizem os vários envolvidos, foi. Entenderam-se sobre ideias-chave que tentem recuperar a economia – e isso é decisivo; entenderam-se sobre uma reforma fiscal, sobre algumas coisas a pedir à Europa; e entenderam-se sobre algumas medidas para ajustar o Orçamento do Estado a uma realidade que implica juros de 8 mil milhões/ano. E também sobre a consolidação a médio prazo.

Mas perdeu-se claramente uma oportunidade: juntar todos à mesa da troika, com a força de uma palavra comum e de um compromisso de médio prazo, para fazer uma consolidação realista, mas construída em conjunto. Na sua ausência, ficaram as pontes – que só o Presidente podia reatar, contra todas as expectativas.

Agora, temos um Governo ‘ou vai ou racha’. O bom-senso que regressou não é mau indicador. Os pequenos sinais da economia (e da Europa) também não.

Mas o triste é isto: se não resultar, será a troika a impor o que os partidos não quiseram. Que será já um acordo de sobrevivência. Deles próprios. E de nós todos.

 

(Publicado no Sol no final de Julho)

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