Swap

Um swap no Governo

O novo secretário de Estado do Tesouro estava já metido num problema. Hoje, depois do ‘briefing’ a que quis comparecer, o caso ficou bastante mais sério. Para ele e para a ministra das Finanças – que até tinha ganho algum tempo com a sua ida à Comissão de Inquérito esta semana.

Vejamos este caso.

  1. No início deste processo, o próprio Governo estabeleceu um critério político para a sua própria conduta neste caso. Dois secretários de Estado foram demitidos, precisamente por estarem envolvidos, à altura dos factos, na contratação deste tipo de produtos por empresas do Estado.
  2. Esse critério já não era simples. Se Juvenal Silva Peneda e Braga Lino saíram, Maria Luís Albuquerque e Marco António Costa ficaram. A primeira por (enquanto responsável financeira da Refer) não ter ‘comprado’ swap tóxicos (só ‘complexos’, argumenta o IGCP); o segundo por não ter poder executivo na Administração do Metro do Porto.
  3. Mesmo assim, insisto, havia um critério. E ele aprofundou-se com a demissão de alguns gestores públicos – por terem comprado esses mesmos swaps. E até com uma investigação a quem devia ter descoberto o problema e nada fez.
  4. Agora sabe-se que Pais Jorge, há duas semanas contratado por Maria Luís Albuquerque, esteve no Citigroup. E que alegadamente teve uma reunião no gabinete de José Sócrates, onde se pretendia vender estes produtos ao Estado. Atente-se: a argumentação era que, financiando-se com swaps, as empresas conseguiam esconder essa dívida das estatísticas oficiais.
  5. Pais Jorge justificou hoje que só estava na “área de clientes” do Citigroup. E que não tinha responsabilidades na “concepção, elaboração e negociação” dos produtos, derivados ou não. Pois, não chega.
  6. Não chega porque não percebemos o que era isso da “relação com clientes” (fazia o quê, precisamente?). E não chega também quando Pais Jorge confirma ter tido “centenas de reuniões” para apresentar tais produtos – mesmo que alegue, depois, não se recordar se esteve naquela em São Bento, em 2005.
  7. Ora, não é possível acreditar que Pais Jorge tenha estado a apresentar produtos tóxicos sem perceber o que estava a ‘vender’ – senão, não era hoje Secretário de Estado do Tesouro, como diz a Graça Franco, no site da Renascença. Mas se percebia o problema ético daquele produto que tinha que defender, não se entende como pode agora estar num Governo que contesta, em tribunal, um banco por ter enganado o Estado vendendo-lhe tais produtos. Sobretudo com o critério político que este Governo criou com as demissões anteriores.
  8. Dito isto, é claro que não me ofende nada que um secretário de Estado tenha no seu currículo uma passagem pelo Citigroup. E até admito que me possam convencer que, tendo lá estado, não tinha responsabilidade nenhuma na venda destes produtos ao Estado. Agora, isto que ouvi hoje não me convence nada.
  9. E se Pais Jorge (e Maria Luís Albuquerque) acha que basta dizer isto quando for chamado à Comissão de Inquérito é porque não está mesmo a ver bem o filme em que está metido. Nada mesmo.

P.S. O argumentário do Citigroup, em 2005, foi precisamente o que levou a Grécia ao problema que enfrentou hoje (porque a Grécia comprou aqueles produtos em massa, escondendo-os do Eurostat). A troika deve gostar disto, quando estiver a falar com Pais Jorge.

 

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