Swap

Processos sumários

O mundo mediático em que vivemos tem uma extraordinária vantagem: permite-nos escrutinar ao minuto o que faz cada um dos poderes de Estado. Não só o Governo, mas sobretudo ele.
Mas essa qualidade tem um preço: hoje temos conclusões sobre tudo assim que há meia informação sobre um tema.

Os processos sumários na praça pública são a pior face desta moeda. Que se completa com os políticos, precipitando-se em acusações e contra-acusações, sem outro objectivo do que lutar por ficar menos mal na fotografia do dia. Escusado será dizer que tudo rapidamente se vira contra eles.

O caso das operações swap tem sido farto em exemplos disto – mostrando quão difícil se torna o esclarecimento cabal das várias vertentes de uma polémica.

Uma parte da história é conhecida de todos. Joaquim Pais Jorge, o demissionário secretário de Estado do Tesouro, teve uma extraordinária dificuldade em dizer a todos o que tinha e não tinha feito enquanto representante do Citigroup em Portugal. A sua incapacidade tornou-se um fardo gigantesco para o Governo desde cedo. Ele fazia o quê, com precisão? A proposta do Citigroup era, ou não, condenável aos seus olhos? Há mais exemplos, mas estes são os essenciais. A sua saída tornou-se, há uma semana, uma inevitabilidade.

Mas nem a óbvia inconsistência de Pais Jorge chegou para evitar uma série de julgamentos, interpretações e precipitações – incluindo da parte dos média. A mais óbvia é a que resultou da expressão «inconsistências problemáticas», usada por Pedro Lomba no famoso briefing do Governo. Ora, essas inconsistências de que o secretário de Estado falava referiam-se não a Pais Jorge, mas aos documentos (da proposta feita pelo Citigroup ao Governo de Sócrates ) vindos a público – que o Governo diz terem sido manipulados, por serem diferentes dos originais. Ninguém o percebeu assim, mas era isso.

Mas há mais: a SIC, em resposta ao Governo, veio dizer que os documentos que tinha publicado vieram de São Bento – e há, segundo a SIC – mais do que um documento. Primeira dúvida: vieram de São Bento hoje, ou de quem esteve antes em São Bento? Muitos acharam possível que viessem de Passos Coelho (!).
Segundo: ainda que pareça louca a acusação de manipulação, é possível garantir – sem mais averiguações – que aquele documento é mesmo ‘o documento’? E que mesmo que houvesse manipulação, isso não tinha qualquer importância (um conceito de ética interessante).

É claro que o argumento do PSD e Governo não resolve minimamente o caso Pais Jorge. O documento dito original tem uma data: 1 de Julho de 2005. Pais Jorge estava já no Citigroup. E tinha a cargo a relação com o Estado, o cliente. Dele só ouvi, sobre isto, um jogo de palavras: não era responsável pela elaboração da proposta. Pois. Mas apresentava-a aos potenciais clientes? Ah, pois.

Perante a contradição, o argumento torna-se risível: Pais Jorge passaria de inocente a um suspeito de tudo, que devia até ter sido denunciado pelo Governo Sócrates.

Mas a evidência de que nem tudo o que luz é ouro aparece agora, com os documentos que mostram que, afinal, a tal proposta do Citigroup foi travada, sim, mas não por Sócrates e pelo seu gabinete. Foi, imagine-se, por Franquelim Alves – um dos mais enlameados ex-membros do BPN. Muitos nem acharam importante. Muitos eram os mesmos que diziam, com certezas, que a proposta tinha sido travada por Sócrates. Há ironias incríveis.

Mas há erros em que não quero cair: se isto se soube agora foi porque Sócrates deixou os papéis em S. Bento quando saiu. E, já agora, nada disto iliba ainda Pais Jorge.l

(com base no artigo publicado no Sol, a 9 de Agosto)

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