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As boas notícias são boas. Ponto

As boas notícias em Portugal são recebidas de uma forma estranha. Ao fim de três anos de recessão, de outros tantos de austeridade, desconfiamos delas – como se tivessem dedo do diabo.

Cada vez mais afastada dos políticos, das suas promessas e respectivas desilusões, instalou-se na sociedade o vírus do opositor. Diz-se mal mesmo quando é bom; procura-se o lado negro para justificar que não devemos cair na tentação de acreditar.  

As reacções desta semana ao surpreendente anúncio da subida do PIB foram exemplares. O Bloco de Esquerda disse que tudo se devia ao chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional, quando não há um único dado que o indique. Para apimentar, acrescentou que muito se deve a factores conjunturais ou sazonais – que nenhum registo histórico comprova.

O PS, que durante meses falou de uma espiral recessiva, resolveu falar de «contentamento descontente», uma gracinha que serviu para acentuar que, em termos homólogos, o PIB está ainda a cair 2%. Não foi mais longe e ainda bem – mas podia  ter dito bem melhor.

Esta semana, na Irlanda, o porta-voz dos socialistas (também na oposição) para os assuntos económicos escreveu uma carta aberta ao Governo que é uma ode à inteligência dos eleitores. Nesse texto, publicado no Irish Times, Michael McGrath sugeria (como cá faz Seguro) que se aliviasse os cortes previstos para o próximo Orçamento. Mas sem cair no erro do slogan ‘nem mais um corte’, tão-pouco de prometer repor pensões ou salários. Como se estivesse no Governo, McGrath falou dos níveis perigosos de endividamento, da necessidade de regressar ao financiamento autónomo – e de manter um ajustamento orçamental.

A carta diz muito sobre o que diferencia o debate público cá e lá. E também mostra como em Dublin o ajustamento está noutro patamar, permitindo outro tipo de flexibilidade.

Claro que também há semelhanças. Também na Irlanda a coligação no poder divide-se sobre como prosseguir. O primeiro-ministro insiste em manter o ritmo da austeridade, o vice-primeiro-ministro pede um abrandamento. Tudo em público, nas primeiras páginas.

Por cá, chegados aqui, é indiscutível que o crescimento registado no segundo trimestre é um balão de oxigénio para a coligação. Mas não prova ainda que o caminho esteve certo. Há dados por perceber. E um estreito caminho pela frente.

Tão estreito que é difícil ver-lhe um fim. Continuam as reuniões intermináveis do Conselho de Ministros, que são – disse-o, bem,  Santana Lopes – a maneira errada de construir um orçamento. Há medidas prometidas à troika com menos poupança que a estimada (veja-se a CGA). Outras desapareceram no caminho (TSU dos reformados), outras ainda são um mistério (cortes em ministérios, nova tabela salarial do Estado). 

Os problemas avolumam-se: empresas públicas que vão contar na dívida, PPP que sobem de custos, juros no mercado secundário que não descem. A grande questão dos próximos dois meses será esta: chegarão as boas notícias para lhes dar força anímica?

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