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Campanha clandestina

A Comissão Nacional de Eleições conseguiu transformar as próximas autárquicas em acto clandestino.

A sua interpretação restritiva das leis eleitorais revela um desconhecimento enorme sobre como funcionam os meios de comunicação – sobre como os diferentes critérios editoriais se equilibram, fazendo do ‘mercado’ das notícias uma coisa plural e de serviço público; de como a crise económica tornou os media menos livres para fazerem escolhas e cumprir o seu dever de informar.

Convém recordar que tudo começou com uma queixa do MEP e do PCTP/MRPP sobre a sua exclusão de debates eleitorais. A decisão da CNE (e, antes, dos tribunais) é tão absurda que o seu resultado será o inverso do pretendido: nenhum português, hoje, conhece um candidato do PCTP às autárquicas. Pior é que também dificilmente conhecerá do Bloco, do CDS ou do PCP.

Mas a decisão dos juízes terá uma segunda consequência negativa. Para evitar multas e processos, os maiores órgãos de comunicação vão fazer notícias apenas sobre o que vão dizer na estrada os líderes partidários – sobre o país, não sobre as autarquias. A campanha autárquica virou uma pré-campanha das legislativas.

Interessante, não é? Sobretudo quando tudo parte da CNE, que acabou de proibir uma entrevista ao primeiro-ministro na RTP precisamente por estarmos em campanha autárquica – e para não prejudicar os adversários. A mesma CNE que, aliás, nada disse sobre o facto de o líder da oposição ter dado duas entrevistas na última semana e meia (uma à TVI24 e outra ao DN), falando de autárquicas, do Governo e do que lhe quiseram (e bem) perguntar. Tudo isto faz imenso sentido, realmente.

No meio disto, vai sobrar-nos pouco para pensar e muito barulho para entreter. Um exemplo disso: na quarta-feira fui ouvir Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque na comissão de acompanhamento da troika. Ouvi Portas a dizer uma banalidade acerca da meta do défice – e registei o furor que a declaração causou. Digo banalidade e reitero: que o Governo pediu 4,5% em Abril é sabido. E se o pediu então, não pode dizer agora que já não precisa.

Depois veio Passos comentar a evidência. As primeiras notícias davam conta de um reiterar de posições. Mas quando uma outra falou de uma contradição, logo todas foram contaminadas. Num mesmo site noticioso li as duas versões em simultâneo.

Pelo meio, fiquei sem saber o que queria. Com que base está a ser construído o próximo Orçamento? Para que pede o Governo uma nova flexibilização se argumenta que poderá rever em alta o crescimento da economia (o que é suposto trazer benefícios orçamentais)? Que medida substitui, afinal, a polémica TSU dos reformados? Em que medidas se traduzirão os cortes previstos na 7ª avaliação para Saúde e Educação?

Na verdade, hoje em dia tiram-se muitas conclusões, mas fazem-se poucas perguntas. Houve, porém, um deputado do PSque as fez. Pena que Portas não tenha tido respostas para o socialista Pedro Marques. Era bom que as tivesse, a partir de segunda-feira, para a troika.

(artigo publicado no SOL, a 15.9.2013)

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