Governo, Gaspar, Demissão, Sem categoria

Boa noite e boa sorte

Pelos vistos Vítor Gaspar estava farto. Sobretudo farto do Governo. Basta ler a sua carta de demissão para o percebermos com clareza. A primeira conclusão sobre a sua saída tem que ser esta: quem está farto não pode fazer falta. Escrevi-o no Sol há cerca de mês e meio, quando o ouvi numa comissão parlamentar claramente sem paciência. Mal eu sabia o quanto estava certo.

Mas a carta que hoje escreveu a Passos Coelho é grave. Sobretudo pelo que confirma sobre o estado do Governo.

  1. Vítor Gaspar não se limitou a escrever a Passos Coelho. Escreveu-lhe e divulgou-a publicamente. Se o fez, não é por se sentir confortado com o apoio que teve nos últimos tempos. E não é para conforto da sua sucessora (que dificilmente gostará de ler o testamento que Gaspar lhe deixou)
  2. Em três passagens diferentes, Gaspar deixa claro o seu desentendimento com o CDS e Paulo Portas. Na passagem em que fala da sua primeira demissão (Outubro de 2012, quando o CDS contestava o seu «enorme aumento de impostos»); na história do Conselho de Ministros de Maio onde Portas ameaçou não assinar a sétima revisão por causa da TSU dos reformados; e no aviso a Passos de que espera que este use a sua saída para garantir a «coesão do Governo». «Cabe-lhe o fardo da liderança», escreveu-lhe Gaspar. Não parece uma carta de despedida. Parece uma maldição.

Na minha opinião, o problema chave deste Governo não vai mudar com a saída de Vítor Gaspar: é uma equação quase impossível entre a necessidade imperiosa de cumprir com a troika e a obrigação democrática de se justificar aos portugueses. Dir-me-ão que Vítor Gaspar ignorava a segunda – eu eu confirmo. Dir-me-ão que era preciso mudar muita coisa – e eu concordo. Mas é evidente que a saída de Gaspar coloca Passos sozinho na linha de fogo. E a sua carta deixa dúvidas sobre a sua capacidade de levar o barco a bom porto.
Os próximos dias são, por isso, cruciais: ou Passos usa a saída de Gaspar para fazer deste um Governo coeso, mas sempre credível aos olhos externos, ou a saída do memorando vai tornar-se muito mais difícil a partir daqui.
Se preferirem, sintetizo assim: Pode haver Governo sem Gaspar, claro, mas ele tem que ser muito melhor do que tem sido. Muito melhor.
P.S. Passaram algumas horas sobre a demissão. Era tempo de o primeiro-ministro dizer umas palavinhas ao país sobre o assunto.

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